O desastre de Mariana e os Garous

Na tarde do dia 5 de novembro de 2015, a barragem do Fundão se rompeu. O desastre teve proporções catastróficas e se transformou a maior catástrofe natural da história brasileira.
O que poucos sabem é o que há por trás de tudo isso.

Tudo começou há algumas décadas atrás, quando a Samarco Mineração S.A construiu a barragem para conter os rejeitos advindos do processo de mineração local. Nessa época, a cidade de Mariana e as comunidades ao redor cresceram graças ao grande fluxo de trabalhadores. O Caern mais próximo, do Pico do Itacolomi, era comandado por Garras Vermelhas, responsáveis pelo controle da população local. Porém, tudo aconteceu tão rápido que eles não tiveram tempo de se organizar.

As licitações, as inspeções: toda documentação necessária para o funcionamento de uma operação daquele porte foi simplesmente liberada rápido. Muito rápido. Tratando-se de um território de Garras Vermelhas, os Andarilhos do Asfalto não tinham a liberdade necessária para agir e contestar o plano de ação da Samarco, permanecendo de mãos atadas diante do rápido avanço da indústria de mineração no local.

As barragens foram construídas.

Barragem do Cajueiro

Durante algum tempo os Andarilhos foram capazes de manter alguns dos seus — a muito contragosto dos Garras Vermelhas — para inspecionar as obras e o funcionamento da indústria. Com o tempo, porém, as suspeitas de uma possível ação dos Andarilhos para tirar o Caern de exclusividade dos Garras fez com que eles tivessem de mudar seus planos e os garous infiltrados na mineradora foram obrigados a se afastar. Num acordo, parentes dos Andarilhos foram aceitos para investigar o local, mas nenhum Garou que não fosse Garra Vermelha poderia se aproximar.

O que nenhuma das partes sabia era que a algum tempo, enquanto o impasse entre as duas tribos garous fervilhava, a Pentex conseguiu seguir com parte de seu plano para poluir e corromper a reserva de mata nativa ao redor de Mariana e os Caerns próximos. A investida da Pentex culminou com o rompimento da barragem, constantemente danificada pelos químicos discretamente jogados na água de rejeito. Mas não era só as mãos da Pentex que estavam envolvidos nesse desastre.

Oculto pelo projeto da Pentex na barragem de Fundão, um grupo de Dançarinos da Espiral Negra coordenava a criação de uma nova Colméia. Mais que isso. Com o avanço da escavação e da construção da estrutura da Colméia, os Dançarinos descobriram uma fonte de poder, um coração adormecido, oculto embaixo das minas da Samarco. Os Espirais, que já sabiam do trabalho que estava sendo produzido pela Pentex, aproveitaram a cortina de fumaça que se desenvolvia na superfície e fizeram uma brusca mudança em suas obras. Um ritual foi cuidadosamente organizado. Nele, os Dançarinos da Espiral, se preparando para o desastre arquitetado que estava por vir, prepararam sacrifícios para um totem extremamente poderoso.

O ritual foi finalizado na tarde do dia 5 de novembro, culminando na força que era necessária para que a barragem do Fundão finalmente ruísse. O Ritual atraiu um dos mais antigos e poderosos totens de corrupção e destruição da Wyrm: G’louogh, “A Dança da Corrupção”.

Quando a barragem ruiu, a força de G’louogh foi mascarada pela água venenosa e corrompida que foi liberada. Os selos que impediam as máculas da barragem de serem sentidas, estrategicamente plantados pela Pentex durante reformas que ocorreram na estrutura da barragem, romperam. Foi o prenúncio do caos, quando a gigantesca onda se alastrou pelo sul de Minas Gerais, destruindo comunidades ribeirinhas, comunidades nativas e até mesmo cidades inteiras, deixando um rastro de corpos não só de humanos, mas também animais.

A mácula da Wyrm liberada pelo rompimento da barragem lembrava a de uma tragédia sofrida há pouco tempo: O derretimento dos três reatores de Fukushima. Mais um golpe doloroso sofrido por Gaia.

G’louogh estava feliz com o sacrifício. Sua risada ensandecida podia ser ouvida por toda a Colmeia. Os Dançarinos comemoravam. Dançavam pela vitória conquistada naquele dia.



Garrorgh, As Garras da Montanha que Subjugam a Wyrm, líder e ancião do Caern do Pico do Itacolomi, foi o primeiro a ouvir à distância o som de concreto e metal se distorcendo e ruindo. Temendo, não sabendo o quê, Garrorgh podia sentir na mudança súbita do ar que algo estava errado. Como se fosse feito de vento, cruzou a pouca distância que o levava até o cume do pico. Lá do alto, o lobo de pelos negros e vermelhos pode ver a onda maculada que se formava ao norte. Seus olhos se arregalaram. Sua matilha chegou alguns poucos instantes depois. Mas eles, assim como Garrorgh, só puderam observar, pois o estrago já estava feito.

Sua matilha mal teve tempo para processar o que havia acontecido.

Garrorgh riu baixo. Era um riso distorcido, misto de desespero, medo, uma risada que lembrava vagamente o riso de escárnio de um Ragabash. Exceto pelo tom macabro.

Naquele momento, enquanto sua matilha estava dividida entre o susto da risada deformada dele e da onda de destruição pútrida que lavava a natureza que eles tanto se esforçaram para proteger, havia o som de ossos estralando. Garrorgh estava Crinando, mas… havia algo errado.

Seu corpo lupino começava a se prostar sobre duas patas, enquanto sua coluna espinhal crescia à medida que ele fazia a mudança direto para a forma crinos. Ele elevou a pata direita, cujos dedos já se alongavam até o focinho. A pata esquerda acompanhou, sendo colocada em cima dos olhos. Sua risada deixou de ser uma risada de escárnio.

Ela se tornou loucura.

Desespero.

— Tudo… Tudo isso… Por nada…!? HAHAHAHA — ele parou de falar, interrompido por suas próprias risadas incontroláveis — Nossos… anos… tantos anos… tanto esforço…

Fincou a garra esquerda no crânio com tamanha força que as unhas perfuraram a pele, fazendo sangue escorrer.

— É isso, não…? A resposta… todos os nossos esforços…

Sua matilha estava assustada.
Conforme crescia numa transformação que parecia fazer o tempo parar ao redor dele, sua espinha estalava. Suas as costelas crescendo e se expandindo por baixo da pele… e os ossos de sua espinha. De cada uma das suas vértebras brotou um espinho de osso enegrecido. O osso perfurou a pele. Sangue escorreu. Eles podiam ver o sangue escorrendo do focinho de seu Alfa enquanto os dentes cresciam de forma descomunal, projetando-se para fora da linha da arcada dentária, em ângulos arqueados.

Eles viram quando seus olhos se tornaram negros. Quando no surto da loucura, ele arrancou os pêlos e a pele superficial de seu próprio rosto. Garrorgh via em seus olhos uma onda virar um turbilhão, uma espiral negra e verde. Ele sentia a ânsia pela fúria, pela destruição… ele se viu preso numa espiral de loucura e corrupção.

E ele não olhou mais para trás… não.

Pois quando as feridas que ele mesmo causou em seu corpo se regeraram graças ao sangue garou, a pele que cobria a carne era hedionda. Fétida, esverdeada, parecia algum tipo de pele com um aspecto emborrachado, quase como se fosse a pele de uma cobra descamada. O sangue que vertia pelas feridas causadas pelo próprio crescimento desproporcional de seus ossos deixou de ter aspecto avermelhado. Seus pelos vermelhos cor de sangue pareciam queimados, como se o aspecto de vitalidade tivesse sido drenado. Não havia mais brilho de vida em seus olhos. Havia um brilho opaco. Não haviam mais pupilas vermelhas. O sangue de Garrorgh fedia. Fedia a morte. Fedia a corrupção… fedia a Wyrm.

Seus companheiros de matilha deram um, talvez dois passos para trás.

Aquela fração de segundo enquanto seu líder ensandecia parecia durar uma vida inteira.

Então, a mudança finalmente parou. O garou estava imóvel, sua respiração lentamente se acalmando. A onda estava passando. Ele sorriu. Um sorriso distorcido, de orelha a orelha. Ele olhou para o lado, para seus companheiros.

— Eu vi…! Eu vi a resposta…! A Wyrm… é a dança da loucura… da destruição.. da Wyld nós viemos… para a Wyrm iremos. Tudo… IRÁ PARA… A… WYRM!

Ele riu. Sua risada foi acompanhada de um urro. Seus olhos brilharam vermelho. Sua mandíbula se abria em um ângulo estranho. Ele bufou uma névoa verde, fétida. Seu primeiro passo na direção de seus companheiros deixaram uma marca pesada no chão. Ele se curvou. Seus músculos se tensionaram, e com a tensão da musculatura deformada, parte de seus pêlos caíram.

— NÃO O DEIXEM ESCAPAR!

Alguém gritou. Não se sabia de quem era a voz. Mas ela fez com que a realidade voltasse. Os membros restantes da matilha saltaram. Eles crinaram. Seu Ragabash foi o primeiro a pular. Rápido, ágil, esperto. Ainda como lobo, conseguiu morder o braço de Garrorgh. Mas não era suficiente. Não era força suficiente. Pois quando os dentes do Ragabash se prenderam, o outrora Alfa e Ancião do Caern deixou toda a força guardada o impulsionar.

Ele rasgou o ar, como uma bala. Nem mesmo o lupino em seu braço podia pará-lo. Ele caiu uns bons metros à frente. Sua fúria o consumia. Veloz como as águas que se espalhavam e corrompiam a natureza ao redor, ele entrou na mata e antes que seus companheiros pudessem segui-lo, a montanha rangeu.

O espírito protetor.

Ele pedia ajuda pois as forças da Wyrm, atraídas pelo uivo corrompido do garou que dançara a espiral se aproximavam. Desconcertados, os demais membros do Caern se reuniram para proteger o coração de seu lar.

Quando as águas finalmente se acalmaram e o Caern estava seguro, um grupo tentou seguir o rastro do Dançarino fugitivo, em vão. Depois de árvores destroçadas, encontraram o corpo semi-consciente do Ragabash. Vivo por um fio. Seu corpo rasgado em diversas partes quando Garrorgh abraçou seu torso com os dentes, numa mordida quase fatal que fez o Ragabash soltar sua pata. Ele desprezou a vítima. Enquanto corria, sacudiu o focinho, jogando o corpo do Ragabash rasgado por suas presas para o lado. Haviam incontáveis ossos quebrados em seu corpo. O Ragabash sobreviveu… mas carregaria para sempre as marcas daquele dia fatídico.

Não só ele.
Não só os Garras Vermelhas.
Não só os Garous.
Todos os Feras, naquele dia, perderam o chão.

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2 thoughts on “O desastre de Mariana e os Garous”

    1. Agradecemos pelo elogio! E é uma tristeza que uma situação dessa não tenha tido nenhum desfecho positivo, mesmo depois de tantas mortes e tantos danos causados. É mais triste ainda, dizer que a história simplesmente não teve desfecho.

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